Fisioterapeuta recomenda o perdão como vacina contra doenças da alma
- julianopfagundes1
- 2 de mai.
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Foto: divulgação.
Jales Naves
Especial para o jornal A Redação
Goiânia – Na rotina diária as pessoas estão sujeitas a situações que podem ferir e despertar em cada um ressentimento, mágoa e raiva. Por outros motivos, como seres humanos, as pessoas ferem e geram arrependimento, remorso e culpa. “Ressentimentos, mágoas, raiva e culpa são estados / experiências emocionais inerentes aos seres humanos. Porém, quando sustentados por um período de tempo prolongado se fixam no psiquismo e criam padrões mentais negativos, que refletem diretamente em todo o organismo físico”, alerta a fisioterapeuta Mônica Bastos Arruda Xavier de Souza, formada pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, ao falar no sábado, dia 25, no debate promovido pela Academia Espírita de Letras de Goiás, sobre “Medicina e Espiritualidade”, enfocando “Existem vacinas para as doenças da alma?”.
Na exposição, fez um paralelo com o conceito de neuroplasticidade, que é a capacidade do sistema nervoso de se remodelar, se adaptar, se reorganizar em resposta a uma experiência ou estímulo externo. “Vamos pensar que por um determinado motivo alguém nos feriu, nos enganou ou lesou alguém que a gente ama. Dessa forma, um evento externo aconteceu e despertou em nós raiva e mágoa. Também podemos pensar que lesamos ou enganamos alguém, e não esperávamos que as consequências fossem tão doloridas. Uma nova experiência aconteceu e despertou culpa e remorso”.
Neuroplasticidade
A neurociência prova pela neuroplasticidade – como deixou claro – que sustentar repetidamente pensamentos e comportamentos vai criando e aumentando novas vias neurais e melhorando as sinapses envolvidas nesse processo.
É como se o cérebro aprendesse um novo caminho e a pessoa fosse treinada a percorrer esse caminho com mais facilidade. Assim, reviver repetidamente uma dor emocional não é apenas lembrar, é criar, aumentar e aperfeiçoar novos “caminhos” neurais e suas sinapses, reforçando biologicamente esse estado no corpo.
“Esse estado que estamos reforçando é positivo ou negativo? Se pensarmos como profissionais da saúde é como uma inflamação crônica: silenciosa, progressiva e destrutiva. Esse processo não se limita ao cérebro. Imaginem o quanto isso reflete no desequilíbrio do restante do organismo e da mente”.
A boa notícia é que pela neuroplasticidade o cérebro está em adaptação contínua, e esse princípio é neutro, vale para estímulos negativos e positivos. “Então, a qualquer momento podemos inserir novos aprendizados e construir novas redes neurais, substituindo as antigas. É o mesmo mecanismo cerebral usado em recuperações de lesões como AVC e traumas”, afirmou. “Agora, a gente vai tomar uma dose de estímulos para formação de novas vias neurais: a do perdão e do auto perdão.
Perdoar
Para melhor explicar, Monica Arruda ajustou duas coisas, em seu entendimento sobre o que é perdoar.
Primeiro, que existe aquele pensamento: “Ah! Eu vou perdoar, mas e aí?! E o outro, vai ficar tudo por isso mesmo?!”.
O perdão não isenta – esclareceu – a pessoa que lesou de colher as consequências dos seus atos perante as leis divinas.
Deu como exemplo o celular.
“Se a pessoa o soltar ele vai cair? Sim! Porque atua no planeta a lei da gravidade, que puxa todos os objetos para o centro da terra”.
“Escolhi, pelo meu livre arbítrio, soltar o celular. Ele caiu, danificou a tela. Eu tinha uma oportunidade financeira ou um encontro importante e com o celular danificado não consegui agir nessas situações. Assim, as coisas se desenrolaram com prejuízos além de uma tela quebrada”.
“Deus não me puniu / castigou com esses prejuízos. Eu escolhi soltar o celular, a lei da gravidade está 24 horas e o que veio a partir da minha escolha foram as consequências naturais do meu ato. O que fiz foi uma escolha, ninguém me obrigou. Já as consequências que vieram da minha escolha essas sou obrigada a aceitar. Mais um ponto: a lei da gravidade funciona quer se tenha conhecimento dela ou não, quer se acredita nela ou não”.
Leis morais
Do mesmo jeito que existem as leis físicas (como a lei da gravidade) que regem a matéria e não podem ser burladas, existem as leis morais, instituídas por Deus e inscritas na consciência. “No contexto do perdão, a lei de causa e efeito é uma das leis morais que a Justiça Divina usa para ligar cada ação às suas consequências, garantindo que cada criatura colha exatamente o que semeou. É uma lei que transcende a vida física”.
Como na analogia do celular, a lei de causa e efeito funciona quer a pessoa tenha conhecimento dela ou não, acredite nela ou não. E da mesma forma, todas as vezes que se escolhe agir, não existe castigo nem punição, existem as consequências naturais e inclusive educativas. “Pelo livre arbítrio escolhemos os nossos atos e pela lei de causa e efeito as consequências que surgem a partir deles temos que aceitar. querendo ou não”.
O perdão não tem o “poder” de isentar o outro de arcar com as consequências (com as responsabilidades) dos atos praticados por ele perante às leis de Deus. “O perdão não é para o outro, o perdão é pra nós, para a se desligar do sofrimento”.
Não consigo esquecer
O segundo aspecto diz respeito ao fato de que a pessoa não consegue perdoar porque não consegue esquecer. “Perdão não é esquecer, porque, inclusive, a memória é o que nos confere a experiência e os aprendizados que vem desse contexto”.
Como é perdoar? “Perdoar é lembrar sem sofrer. O perdão é o esquecimento de todo “o mal”. A situação a pessoa lembra, mas “o mal” não machuca mais”. E isso é fácil? Não! Nós não estamos aqui romantizando ou negando a dor, e sim elaborando dando outro significado para ela.
“Temos que ser racionais: perdoar é uma escolha consciente. Porque as trilhas neurais da dor já estão instaladas e somos nós que conscientemente temos que interromper esse funcionamento automático”.
“Doeu? Sim!”, não se está negando, mas a escolha é não permanecer nessa dor.
“É um ato único, de um dia para o outro? Não!”. É um processo que demanda tempo e que depende do dano causado. Tem ofensa que na próxima semana a pessoa já lembra sem sofrer. Em outras, talvez precise de anos pra lembrar sem sofrer.
“Porém, nos exige autocontrole para deixarmos de alimentar os caminhos neurais negativos, soltarmos a revolta, o senso de injustiça e confiarmos na Justiça de Deus! Construindo novas vias neurais com novos pensamentos e comportamentos”.
Auto perdão
Nesse processo também existe o auto perdão.
“Se o perdão nos liberta da dor que o outro nos causou, o auto perdão nos liberta da dor interna da culpa. Quantos de nós carregamos erros? Todos! E em algumas vezes no tribunal da mente, nós nos cobramos, nos julgamos e nos punimos silenciosamente”.
A culpa, quando não elaborada, se transforma em um dos mais potentes agentes de adoecimento da alma seguindo o mesmo mecanismo neural “de construir vias e sinapses que nos aprisionam remoendo as situações”.
Errar faz parte do processo evolutivo. O erro não é o fim; pelo contrário, é um instrumento de crescimento. Mas para que ele cumpra esse papel, é necessário da mesma forma uma escolha consciente de reconhecer, reparar se necessário, aprender e seguir. “Auto perdão não é negar o erro, é entender que errar não anula o nosso valor nem o nosso merecimento”, afirmou.
Reagir melhor
A vacina não impede completamente que o agente agressor se instale, mas prepara o organismo para reagir da melhor forma possível.
Da mesma forma, o perdão e o auto perdão “não impedem que sejamos feridos ou que erremos. Mas eles nos preparam para lidar com isso de forma mais saudável, fortalecem a nossa ‘imunidade emocional e espiritual’”, disse a fisioterapeuta.
Uma pessoa que desenvolve a capacidade de perdoar não adoece com a mesma intensidade diante das experiências difíceis. Uma pessoa que aprende a se perdoar não se destrói internamente diante dos próprios erros.
Como se aprende algo? Estudando e praticando.
“Jesus, o maior terapeuta da alma que a humanidade já conheceu, nos ensinou: ‘Perdoai setenta vezes sete’. Não como uma regra matemática, mas como um convite à prática contínua”.
Para finalizar uma reflexão talvez até já conhecida por alguns:
“Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.”




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