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Gismair Martins Teixeira
Gismair Martins Teixeira
Hipátia, a cinebiografia e a materialização de uma alma
O cinema já foi aclamado pelo imaginário popular como sendo uma fábrica de sonhos. É uma definição poética que guarda um profundo vínculo com a realidade. No âmbito da doutrina espírita, mais do que em qualquer outra instância, esta realidade se evidencia. Isto porque a mediunidade descerrou à compreensão humana a perspectiva de uma vida exuberantemente dinâmica nas dimensões espirituais que circundam o plano da existência física. Ao que se depreende de comunicações espirituais diversas, a tecnologia na espiritualidade estaria relativamente mais avançada do que a do plano terreno, sendo esta última uma representação ainda algo grosseira daquela.
A cinematografia, com todo o seu desenvolvimento tecnológico, representa atualmente uma pequena parcela materializada dos recursos comuns à erraticidade, para nos servirmos do termo da sistematização de Kardec. As analogias são diversas e os exemplos também. Em Memórias de um suicida, o espírito-autor escreve pela mediunidade de Yvone do Amaral Pereira, na metade do século passado, a experiência de regressão de memória terapêutica para os espíritos que cometeram suicídio mediante a representação imagética em tela de grandes proporções dos eventos geradores dos conflitos que redundaram em suas crises conscienciais. É assim que em regressão, como se assistisse a uma cinebiografia de sua remota existência à época de Cristo, o autor espiritual se vê na condição de grotesca personagem que atira pedras em Jesus quando este passava carregando a trave da cruz em direção ao Gólgota. Chico Xavier teria relatado a biógrafos que nos romances de Emmanuel sobre as origens do cristianismo, por diversas vezes o seu mentor projetava-lhe cenas, por assim dizer, cinematográficas, dos episódios relatados em seus memoráveis romances históricos.
Dessa forma, a cinematografia representa um extraordinário avanço tecnológico que permite dar asas à imaginação, que muitas vezes guarda um inegável componente mediúnico. Desse número, sem dúvida, são as cinebiografias de personagens marcantes da história universal. Em 2009, o diretor espanhol Alejandro Amenábar, que já dirigira o filme de cunho nitidamente espírita, Os outros, trouxe às telonas no filme Ágora a cinebiografia de uma personagem, sob todos os títulos, fascinante. Trata-se da pensadora e matemática de Alexandria, Hipátia. Filiada à escola neoplatônica de conhecimento, Hipátia (ou Hipácia) foi vítima de um lamentável episódio de fanatismo religioso por parte dos cristãos, que a essa época passavam da condição de perseguidos à de perseguidores, num lamentável processo de desvirtuamento das palavras de Jesus Cristo. O filme do diretor espanhol revive com a natural licença poética da arte cinematográfica todo o processo envolvendo a vida dessa notável mulher e seu conflito involuntário com as forças obscurantistas de Cirilo, posteriormente canonizado pela Igreja, que se utiliza de uma passagem atribuída a Paulo de Tarso determinando que à mulher é interditado falar na Igreja e, por extensão, ministrar ensinamentos. O absurdo começa pelo fato de que Hipátia não era cristã. Mas o objetivo real era fazê-la converter à força para que calassem sua voz.
Por não ceder, Hipátia foi vitimada da maneira mais cruel, sendo morta a pedradas, tendo o seu corpo arrastado pelas ruas de Alexandria por volta do ano 415 d.C., num espetáculo hediondo que faz compreensíveis as palavras atribuídas a Gandhi quando em contato com sacerdotes cristãos que pretendiam convertê-lo: “Admiro e muito o vosso Cristo, mas não o vosso cristianismo”. Não há como deixar de emocionar-se assistindo à peça cinematográfica sobre essa personagem. Sabe-se, através de informações mediúnicas, que muitos espíritos votam ódio ao cristianismo e, por extensão, a Jesus, por conta de tais acontecimentos. Mas não é este o caso de Hipátia, o que demonstra o seu elevado nível evolutivo, não somente intelectual mas sobretudo ético-moral. Na obra norte-americana que em português poderia ser traduzida como O alvorecer da mente desperta, conforme o blog eradoespirito.blogspot do pesquisador espírita Ademir Xavier, o espírito de Hipátia responde a diversas questões sobre espiritualidade. Hipátia é a protetora do autor, Dr. King, o que permite algumas conjecturas, que de resto não passarão disto. Por exemplo, seria o autor algum ex-discípulo? Ou, quem sabe, algum membro da infeliz turba que a vitimou? De 1910, ano da encarnação de Chico Xavier, a obra traz um retrato do nobre espírito materializado através da mediunidade das irmãs Bang, de Chicago, Estados Unidos.
No blog de Xavier há a reprodução do retrato de Hipátia materializada feito pelo Dr. King. A descrição do fenômeno mediúnico de materialização dessa notável entidade é de grande beleza: “Esse espírito protetor apareceu materializada, saindo da cabine para a apreciação de todos os presentes. Palavras dificilmente podem ser encontradas para descrever a figura belíssima dessa materialização. Alta e de porte majestático, carregava joias cintilando a cada movimento, Hipátia estava gloriosa”. Sem dúvida, trata-se de uma alma de escol, acima da média humana, que certamente compõe a falange do Espírito da Verdade, evidenciando o ecletismo da legião espiritual que se encarregou da implantação dos ideais do Consolador na Terra. A pesquisadora espírita Dora Incontri também escreveu excelente análise da vida de Hipátia em sua página na Internet, contextualizando-a em face de seu tempo. Esta cinebiografia em correlação ao evento mediúnico do início do século XX configura, pois, uma nota cultural que permite inferir que o cinema pode representar sim uma espécie de “aporte” tecnológico da espiritualidade para que esta fábrica de sonhos seja um pouco mais que isto.
Gismair Martins Teixeira
O Dia de Bloom e a espiritualidade em James Joyce e Guimarães Rosa
Os estudos da ciência literária sobre a paródia nas últimas décadas colocam ênfase num importante dado cultural relacionado ao aspecto etimológico desse recurso discursivo. Para o senso comum, a paródia funcionaria apenas como um índice de ironia negativa de um texto em relação a outro texto-fonte, uma imitação burlesca. A releitura que autores como Linda Hutcheon e Gérard Genette apresentam, no entanto, buscam na origem da palavra uma nova perspectiva de interpretação à paródia.
O termo é formado por “para” e “odos”, transliterados do grego, e significam literalmente um canto ao lado de outro canto, numa perspectiva não só de oposição, mas também de complementaridade, segundo Hutcheon em “Uma Teoria da Paródia”. Já não se trata mais somente de ridicularizar um texto matriz, podendo a paródia também representar uma grande homenagem, conforme essa autora. Nesta segunda acepção, a década de 20 do século passado viu surgir uma das maiores realizações de todos os tempos desse gênero narrativo: o romance Ulisses, do escritor irlandês, James Joyce. Nessa obra seminal da contemporaneidade literária, Joyce realiza, com mestria cuja análise se encontra longe de ser esgotada, uma paródia à segunda obra de Homero, A Odisseia, que desdobra em sua narrativa os acontecimentos da guerra de Troia apresentados na Ilíada.
Em Ulisses, o texto parodístico não tenta reproduzir simetricamente os longos anos do herói homérico em sua jornada de volta para casa, enfrentando mares, feiticeira e deuses. Bem no espírito de época, ou zeitgeist, que viu o advento da teoria da relatividade de Albert Einstein, cuja proposição trouxe uma revolucionária perspectiva de tempo e espaço para o olhar científico humano, o protagonista joyceano condensa em um dia a década que Odisseu levou para conseguir retornar para a sua amada Penélope em Ítaca. Assim, tem o leitor acesso à mente de Leopold Bloom, o Ulisses de Joyce, podendo contemplar por seus olhos como o mundo se lhe afigurava sob vários ângulos.
O dia escolhido por James Joyce para descrever a rica subjetividade de seu personagem principal é um 16 de junho. O ano em que se passa a sua aventura intimista é 1904. A complexidade da obra, que influenciaria decisivamente importantes escritores mundo afora nas décadas seguintes, granjeou admiradores fervorosos entre os seus leitores. Da iniciativa desses fãs, surgiria o bloomsday, o Dia de Bloom, que é comemorado na Irlanda na data em que Leopold Bloom perambula pela cidade imerso em seus pensamentos e afazeres, numa rotina que seria característica do século e que mereceria o olhar de outros gênios literários, como Franz Kafka em A Metamorfose.
A influência de Joyce é tão marcante no contexto literário e cultural da contemporaneidade, que até a ação de seus fãs de instituírem o bloomsday foi mimetizada por outros segmentos na cultura pop. Na atualidade, são famosas as Comi-cons, grandes reuniões que aglutinam legiões de admiradores do universo da arte pop com seus cosplays que replicam personagens de filmes e HQs, como super-heróis, jedis, mangás e outros. Mas a ampla influência de Joiyce sobre a cultura do século 20 se estende, também, a aspectos como o da espiritualidade mediada pela literariedade que, segundo o linguista Roman Jacobson, é o que torna uma escrita uma obra literária.
INFLUÊNCIA LUSÓFONA E RELIGIOSIDADE
Se A Odisseia de Homero culmina na volta do herói para casa, para a sua fidelíssima Penélope, em Ulisses se tem o retorno de Leopold Bloom para a sua esposa, que na obra se chama Marion, ou Molly, Bloom, que da sua parodiada guarda apenas uma espécie de fidelidade extremamente subjetivada, pois no transcurso do dia de Bloom ela, que é cantora, encontra-se com seu empresário para um relacionamento extraconjugal.
As reflexões de Molly Bloom encerram o volume e nelas se percebe a sua afetividade por Leopold Bloom, apesar das suas traições. A técnica narrativa utilizada por James Joyce no capítulo em que Molly apresenta em retrospecto os seus porquês para a infidelidade, influenciaria na cultura lusófona autores como José Saramago e Guimarães Rosa. O primeiro parece ter aproveitado do entrecho narrativo joyceano a estilística bastante comum em sua produção, caracterizada pela economia na pontuação e nas vírgulas, que tenta mimetizar a fluência do pensamento.
Guimarães Rosa, por sua vez, parece retrabalhar na narrativa de “Grande Sertão: Veredas” a longa fala da Penélope joyceana consigo mesma, que encerra Ulisses. No romance brasileiro, Riobaldo Tartarana dialoga em sua fazenda com um interlocutor da cidade grande, contando suas aventuras à época em que funcionou como jagunço de um temido bando das Minas Gerais, que incursionava também por Goiás e pela Bahia. Os índices joyceanos na formatação do romance de Rosa são muitos, tanto formais quanto conceituais. Um dos mais evidentes é a forte carga psicológica de que ambos estão impregnados.
Um outro índice presente é a paródia à Linda Hutcheon em que Rosa, por assim dizer, homenageia Joyce. Dentre os exemplos possíveis, podemos pinçar o problema do espiritualismo que se mostra marcante no espelhamento que se pode realizar entre as duas obras. Ao caminhar pelas ruas de Dublin, Leopold Bloom se depara com um rapaz cego, o que o faz refletir sobre o porquê de alguém nascer nessa sofrível condição. Onde estaria a justiça? Onde estaria Deus?, questiona-se Bloom. Ele mesmo responde, apontando uma das possibilidades aventadas pelo espiritualismo: “Chamam de carma essa transmigração pelos pecados que você cometeu na vida passada a reencarnação metem psi coisas. Meu Deus, meu Deus, meu Deus”.
Em Grande Sertão: Veredas o escritor brasileiro reconfigura esse episódio de Ulisses quando Riobaldo relata a seu interlocutor citadino um dos muitos casos que viu no sertão das Gerais. Narra o herói rosiano que um certo Aleixo, homem perverso, que matava apenas para ver a careta da vítima, casou-se e teve três filhos. Na primeira infância, todos adoeceram sequencialmente, resultando em cegueira para o infeliz trio. Aleixo se converte à religião, tornando-se um homem bom e caridoso. Dizia ele que a doença dos filhos fora providencial para o seu encontro com a fé.
Riobaldo se revolta com aquela fala de alguém tão perverso, que esfaqueara um velhinho pelo simples fato de ter sido abordado com um pedido de esmola. O que as crianças teriam a ver com a maldade do pai? Seu compadre, Quelemém, que era “seguidor da doutrina da Cardéque”, explica-lhe que as crianças poderiam ter sido perversas numa outra encarnação, sendo cúmplices do pai em maldades inconcebíveis. Nas palavras do personagem, no maravilhoso sertanejo literário rosiano que também parece ter se inspirado no experimentalismo lexical de Joyce: “por certo, noutra vida revirada, os meninos também tinham sido os mais malvados, da massa e peça do pai, demônios do mesmo caldeirão de lugar”.
Em James Joyce, Leopold Bloom levanta o problema a partir de um encontro na rua, quando esboça uma explicação de cunho espiritualista para o problema da cegueira; em Guimarães Rosa, o relato é parodiado numa sequência um pouco mais ampliada, apresentando a perspectiva do espiritualismo espírita que se estabeleceu no Brasil a partir da França, através da fala elidida de compadre Quelemém, seguidor do espiritismo de Allan Kardec.
Ao analisar “Grande Sertão: Veredas”, quando de sua publicação, o crítico literário Antonio Candido afirmou que nessa monumental obra da literatura brasileira há de tudo para quem souber ler. O mesmo conceito se aplica, sem a menor sombra de dúvida, ao portento literário de James Joyce, Ulisses, cuja importância pôde conseguir um dia especial no calendário cultural do último século, um feriado, feito honorífico literário alcançado antes somente pela Bíblia quando tomada em sua vertente de literatura, conforme pudemos apresentar em nossa pesquisa de doutoramento intitulada O Rizoma Bíblico-Literário (https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/4029).
Gismair Martins Teixeira
RESUMO
Gilles Deleuze e Félix Guattari, Gilbert Durand, Linda Hutcheon e Julia Kristeva são autores que têm contribuído de forma significativa no universo das pesquisas literárias nas últimas décadas com seus aportes teóricos. Formuladores de conceitos como rizoma, imaginário, parodização e intertextualidade, respectivamente, suas formulações fomentam o diálogo entre obras artísticas e literárias de contextos e procedências diversas. Neste trabalho, buscamos estabelecer uma correspondência entre a obra do escritor baiano radicado em Goiás, Emídio Silva Falcão Brasileiro, intitulada Um dia em Jerusalém, publicada em primeira edição no ano de 1988, e a obra O profeta, do escritor libanês, Gibran Khalil Gibran. Buscaremos estabelecer o locus discursivo de onde fala o escritor brasileiro, bem como a relação de sua produção em recorte para este estudo com o clássico trabalho gibraniano da literatura sapiencial. Para tanto, buscaremos assentar as bases relacionais desta proposta no universo epistêmico dos teórios mencionados de início.
Palavras-chave: Rizoma; Imaginário; Emídio-Brasileiro.
INTRODUÇÃO
Neste estudo apresentaremos uma breve abordagem comparativa entre as obras referenciadas no resumo, assumindo como elementos epistêmicos norteadores os conceitos nele mencionados. Faremos, de início, um recorte mais incisivo na formulação deleuzeguatarriana acerca do rizoma, reservando aos demais conceitos referências mais breves e contextualizadas no dialogismo entre as produções em análise. Buscaremos desenvolver uma abordagem que ponha em evidência as homologias presentes entre os conceitos utilizados para correlacionar ambos os trabalhos literários do gênero sapiencial.
Rizoma, episteme literária e comparatismo
No primeiro dos cinco volumes brasileiros de Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995, p. 14) conceituam e definem o rizoma como metáfora de cunho epistemológico elaborada a partir do jogo relacional extraído à natureza. A batata, a grama, a erva daninha são rizomas (DELEUZE, GUATTARI, 1995, p. 14): “Até animais o são, sob sua forma matilha; ratos são rizomas.”
A visualização de um gramado permite uma apreensão imagética relativa do conceito epistêmico de rizoma. Cada tufo de grama se conecta a outro por radículas subterrâneas. De maneira semelhante, nas belíssimas vitórias-régias. Apesar da conexão entre as partes, cada uma delas possui a sua independência. Conforme os autores: “[o rizoma] põe em jogo regimes de signos muito diferentes […] (DELEUZE, GUATTARI, 1995, p.31).”
Deleuze e Guattari (1995) apresentam, ainda, seis princípios componentes do conceito de rizoma, funcionando este como um substituto à metáfora arborescente de que está impregnada a cultura ocidental, conforme a arborescência linguística chomskyana (1995, p. 14). O rizoma, no entanto, representaria a momentânea territorialização de um dado objeto e sua multiplicidade interacional em constante fluxo no vir-aser. É um sistema de que se extrai “o único da multiplicidade a ser constituída (DELEUZE, GUATTARI, 1995, p. 13).”
Neste contexto, pois, a autonomia sígnica de qualquer objeto, bem como a sua correlação a outras matérias, poderá caracterizá-lo como um rizoma no contexto mais amplo que os teóricos franceses desenvolvem em seu trabalho. Funcionalmente, neste estudo, cada uma das duas peças literárias aqui apresentadas será assumida como um rizoma independente que, todavia, conecta-se a sua congênere por epistemes literárias e culturais como a intertextualidade, o parodismo hutcheniano e o imaginário durandiano.
O profeta é uma das peças literárias mais conhecidas do escritor libanês Gibran Khalil Gibran. A estrutura desse livro sapiencial é marcada pelo diálogo que se estabelece a partir de lições que são ministradas por Al-Mustafa, o sábio, na imaginária cidade de Orphalese. Ele aguarda a chegada de um navio que o levará a sua terra, pois ali se encontrava, apesar dos 12 anos de permanência, de passagem. Numa abordagem exegética, essa informação pode ser pensada como uma alegoria para a vida. O conteúdo simbólico e de sabedoria de O profeta sugere que Orphalese bem pode representar a existência humana e o mundo que a enforma, numa perspectiva lato sensu.
Simbolicamente, às portas da morte, ou na iminência da volta para o lar espiritual, Al-Mustafa apresenta a seus visitantes, que o cercam na despedida, palavras sábias, carregadas de uma poesia mística singular. São 28 discursos sobre temas fundamentais da existência. O profeta é interrogado por interlocutores diversos sobre temáticas como o amor, o matrimônio, os filhos, a dádiva, o comer e o beber, o trabalho, dentre outros. Sobre a morte, penúltimo tema a ser desenvolvido, Al-Mustafa dirá, em resposta a Almitra:
Quereis conhecer o segredo da morte.
Mas como podereis descobri-lo se não o procurardes no coração da vida?
A coruja, cujos olhos, feitos para a noite, são velados ao dia, não pode descortinar o mistério da luz.
Se quereis realmente contemplar o espírito da morte, abri amplamente as portas de vosso coração ao como da vida.
Pois a vida e a morte são uma e a mesma coisa, como o rio e o mar são uma e a mesma coisa.
Na profundeza de vossas esperanças e aspirações dorme vosso silencioso conhecimento do além […] (GIBRAN, 1980, p.54).
A palavra em destaque pode servir de referencial para remeter o leitor a um rizoma específico, aqui entendido como um recorte cultural particular: o espiritismo kardequiano, sistema de religiosidade francês do século XIX que se estabeleceu no Brasil de forma peculiar, rizomática. Em nosso país, a palavra destacada evoca o imaginário espírita de forma unívoca.
Em As estruturas antropológicas do imaginário, o pesquisador francês, Gilbert Durand (2012, p. 18), define o imaginário como sendo “o conjunto das relações de imagens que constituem o capital pensado do homo-sapiens”. Infere-se, pois, dessas palavras, que cada rizoma particular pode e deve ter o seu imaginário, invariavelmente. Além-túmulo, vida após a morte, imortalidade da alma, reencarnação constituem conjuntos imagéticos do capital espiritista que surge no cenário cultural humano em 18 de abril de 1857, com a publicação de O livro dos espíritos por Allan Kardec (1995), pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail.
Na despedida de Al-Mustafa, Almitra, a vidente, verbaliza o sentimento de todos os presentes à partida do profeta, que apresenta em suas palavras elementos novos para a leitura alegórica de que realmente a partida dizia respeito à morte. Neste momento crucial, o sábio tece considerações remissivas ao imaginário espírita, em poesia mística de
peregrina beleza que estrutura em metáforas tomadas de empréstimo à natureza.
Conclui Al-Mustafa sua despedida com estas palavras:
Estou pronto.
O rio já atingiu o mar, e mais uma vez a grande mãe aperta seu filho contra o peito.
[…] Mais um curto instante, e minha nostalgia começará a recolher argila e espuma para um novo corpo.
Mais um curto instante, mais um descanso rápido sobre o vento, e outra mulher me conceberá (GIBRAN, 1980, p.59).
O autor sugere de forma nítida neste tópico o princípio da palingênese grega, ou a moderna reencarnação. Aqui, porém, é possível vislumbrar uma possível construção alegórica com base no princípio reencarnacionista. Al-Mustafa pode reencarnar alegoricamente segundo os modernos postulados em torno da paródia, conforme apresentado por Linda Hutcheon (1985) em Uma teoria da paródia: ensinamentos das formas de arte no século XX, espaço em que afirma que a paródia representa etimologicamente não só a possibilidade do burlesco, do irônico, mas a possibilidade do diálogo construtivo entre os textos (HUTCHEON, 1985, p.1985).
Al-Mustafa ressurge pelas vias da homenagem parodística à sublimidade poética e mística de que se fez mensageiro em O profeta. Agora, porém, concebido em terras goianas. No ano de 1988 veio a público a obra Um dia em Jerusalém, de autoria de Emídio Silva Falcão Brasileiro. Tanto no aspecto formal, quanto no aspecto estético, a produção de Emídio Brasileiro dialoga com o texto-fonte de Gibran, mas presta homenagem também a outro momento literário e religioso humano.
O cenário agora é outro, embora marcadores referenciais estabeleçam as vinculações necessárias entre as obras. Os doze anos passados pelo profeta em Orphalese agora têm como espelhamento os doze anos de idade de Jesus Cristo, tão jovem mas já tão sábio. A cidade se transmuta em Jerusalém. Os interlocutores se apresentam como os sacerdotes do templo judaico que interrogam o notável adolescente. O episódio de Jesus no templo aos doze anos é originalmente narrado na Bíblia (2018), no segundo capítulo do Evangelho de Lucas. Assim, Um dia em Jerusalém estabelece uma dupla homenagem parodística hutcheniana a Khalil Gibran e aos evangelhos.
Embora as mudanças espaço-temporais e de personagens, a verve sapiencial de O profeta e de Um dia em Jerusalém em muito se assemelha. Após responder a sacerdotes que personificam em alguns momentos os correspondentes aspectos temáticos dos interlocutores da obra gibraniana, o Jesus adolescente também faz a sua despedida em termos evocativos da reencarnação a que Al-Mustafa faz referência:
Disse, então, Jesus aos Sacerdotes e Doutores da Lei:
“Sacerdotes de Jerusalém, tenho que vos deixar, mas certamente não cessareis de indagar.
A semente está semeada…
Em verdade vos digo: Ainda não chegou a hora de fazer todas as coisas de meu Pai.
Também sou obediente aos imperativos das Leis Soberanas que regem vosso mundo.
É preciso que todas as coisas venham ao seu tempo.
Mas vós dareis credibilidade a um jovem?
Digo-vos que não sou este corpo, como vós também não sois vossos corpos, embora pelos séculos tendes passado por muitos.
Pertenceis à Eternidade (BRASILEIRO, 1988, p. 91-2).
Em seu clássico Introdução à semanálise, Julia Kristeva (2005, p. 68) define a intertextualidade como sendo um mosaico de citações em que “todo texto é absorção e transformação de outro texto.” Ou seja, a intertextualidade pode ser pensada como um elemento onipresente na construção literária como um todo. O Jesus adolescente de Emídio Brasileiro revisita temáticas de Al-Mustafa, num possível diálogo exegético de profeta para profeta.
Contudo, apesar da coincidência entre temas como o amor e a lei, Um dia em Jerusalém traz outras temáticas sapienciais que não estão diretamente tratadas em O profeta. É o caso, por exemplo, da caridade, que numa abordagem etimológica poderia ser categorizada como uma variação do amor. Sobre a caridade, o trabalho de natureza hutcheniana de Brasileiro (1988, p. 87) registra: “Em verdade vos digo: quando a caridade bater a vossa porta, abri-a e deixai que ela habite vossa casa. Porque ela vos ajudará a suportar vossos dias de inconstância, vossas lamúrias e desassossegos.”
No contexto do imaginário espírita, autores que já partiram para o que alguns denominam de país da morte podem e muitas vezes voltam para produzirem peças literárias que serviriam de evidências da continuidade da vida após a morte física. Uma das mais impactantes produções a respeito é o livro Parnaso de além-túmulo, psicografada pelo médium Chico Xavier (2018) e composta de dezenas de poesias atribuídas a toda uma gama de poetas luto-brasileiros.
Emídio Silva Falcão Brasileiro é conhecido nome no Brasil tanto no ambiente acadêmico quanto no movimento espírita nacional (WIKIPEDIA, 2018). Doutor em Direito por universidade portuguesa, o autor é professor dessa matéria em diversas faculdades goianas, com bibliografia produzida sobre temas da sua área de formação, bem como de estudos em diversos outros campos da cultura.
Neste contexto, a pergunta que emerge natural é se Um dia em Jerusalém poderia ser recebido como uma psicografia em que a alma de Gibran Khalil Gibran teria retornado pelas mãos do escritor baiano. A esse respeito, o universo da crítica genética ofereceria instigante episteme para a pesquisa mediante todo um arcabouço de possibilidades que se abre à pesquisa dessa peculiar forma de escrita literária.
CONCLUSÃO
A crítica genética é uma das modalidades epistêmicas do universo dos estudos da ciência literária, ou poética. Nela, estuda-se a gênese de uma obra a partir do suporte físico de seus manuscritos. É possível, contudo, passar-se desse suporte a perquirições de subjetividade, com o estudo da personalidade do médium e do próprio fenômeno mediúnico,
caracterizado pela acoplagem de uma força estranha ao medianeiro que o induz a comunicações dos mais variados matizes.
A psicografia é o fenômeno mediúnico que dialoga intimamente com o imaginário literário, pois as almas do outro mundo, ou além, em tese poderiam voltar e escrever através do sujeito mediúnico. Existe uma massa crítica considerável desse fenômeno no universo cultural humano, atualmente. Ignorá-la não parece muito sensato. Estudá-la em todos os seus ângulos possíveis é uma necessidade no âmbito da cultura, pois outro campo epistêmico dos estudos literários, a estética da recepção, confere ao fenômeno uma importância que não pode ser menosprezada.
Um dia em Jerusalém representa, portanto, um instigante material de pesquisa que pode e deve ser levada a efeito em momentos outros dos estudos da ciência literária, pois representa um riquíssimo material de reflexão entre a produção e a recepção de uma obra literária forjada a partir das profundezas da subjetividade humana sob todos os aspectos, demarcando o locus discursivo de seu autor, cuja representação de insere no contexto do rizoma e do imaginário espiritista kardequiano.
REFERÊNCIAS
BÍBLIA. Tradução de João Ferreira de Almeida. Disponível em <http://www. ebooksbrasil.org/adobeebook/biblia.pdf> Acesso em 02 jun. 2018.
BRASILEIRO, Emídio Silva Falcão. Um dia em Jerusalém. Editora Líder: Goiânia, 1988.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Tradução de Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. Tradução de Hélder Godinho. São Paulo: Editoria Martins Fontes, 2012.
GIBRAN, Gibran Khalil. O profeta. Tradução de Mansour Chalita. Rio de Janeiro: José Fagundes do Amaral e Cia. Ltda, 1980.
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da paródia: ensinamentos das formas de arte do século XX. Tradução de Tereza Louro Pérez. Lisboa: Edições 70, 1985.
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Editora FEB, 1995.
KRISTEVA, Julia. Introdução à semanálise. Tradução de Lúcia Helena França Ferraz. São Paulo: Perspectiva, 2005. XAVIER, Francisco Cândido. Parnaso de além-túmulo. Disponível em <http://bvespirita.com/Parnaso%20de%20Alemtumulo%20(psicografia%20Chico%20Xavier%20-
%20espiritos%20diversos).pdf> Acesso em 02 jun. 2018.
WIKIPEDIA. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Em%C3%ADdio_Brasileiro> Acesso em 02 jun. 2018
O filme de uma inteligência singular
Gismair Martins Teixeira
Em 10 de julho de 2019, a Universidade Federal de Pernambuco concedeu o título de Doutor Honoris Causa ao médium espírita baiano, Divaldo Pereira Franco, pelo expressivo conjunto de seus pouco mais de trezentos livros psicografados, muitos dos quais traduzidos para diversas línguas. O título honorífico concedido a Franco se soma a outros congêneres, como o de Doutor Honoris causa em Humanidades, pela Universidade de Montreal, Canadá; Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia e Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Piauí.
Em entrevista acerca da honraria concedida pela universidade pernambucana, que teve como um dos motivos fundamentais, além da vasta produção bibliográfica, o seu extenso trabalho em torno de realizações socioeducacionais e humanitárias no amparo a pessoas marginalizadas na cidade de Salvador, Bahia, Divaldo Franco observou que a sua produção literária apresenta um caráter peculiar, pois se trata do fenômeno espírita denominado psicografia, caracterizado pela atuação de espíritos que se serviriam de aptidões psicomotoras do médium para escreverem a partir de uma realidade espiritual transcendente, que já foi muitas vezes tema do imaginário cinematográfico.
A performance cultural mediúnica de Divaldo Pereira Franco não se destaca somente no fenômeno psicográfico da escrita. Dono de uma oratória clássica singularmente expressiva que, segundo apontamentos biográficos em torno de sua trajetória, é também utilizada pelos espíritos através do fenômeno denominado psicofonia (quando um espírito falaria através do aparelho vocal de um médium dotado dessa faculdade), já realizou pouco mais de 15 mil conferências em 64 países, sendo dez delas na sede da Organização das Nações Unidas, em fóruns sobre espiritualidade, filantropia e humanidades.
Conforme as palavras da jornalista Ana Landi, biógrafa de Divaldo Franco, tudo em torno de sua trajetória ganha dimensões superlativas. Se a performance cultural mediúnica de Franco guarda instigantes correspondências com o imaginário do cinema, que já retratou o mundo espiritual em significativo número de produções mundo afora, nada mais natural que o médium de 92 anos de idade chegasse às telonas através de uma cinebiografia que dimensionasse o porquê de seu reconhecimento e prestígio no Brasil e no exterior.
É exatamente o que acabar de ocorrer, com a estreia nos cinemas brasileiros do filme “Divaldo – O Mensageiro da Paz”. Produzido por Raul Doria, Sidney Girão, Marina Moretti e Luciane Toffoli, o filme tem a direção e o roteiro assinados por Clovis Mello, que se inspirou na biografia “Divaldo Franco: A Trajetória de Um Dos Maiores Médiuns de Todos Os Tempos”, da jornalista e historiadora Ana Landi.
O filme tem a distribuição da Fox Filme Brasil e traz no elenco nomes como João Bravo, Guilherme Lobo e Bruno Garcia, que vivem o médium em três fases distintas, além de Regiane Alves, que interpreta a mentora espiritual de Franco, Joanna de Ângelis. “Divaldo – O Mensageiro da Paz” busca reproduzir facetas importantes da personalidade do médium espírita, que tem de forma cavalheiresca transferido as homenagens recebidas à doutrina de que se fez mensageiro no Brasil e no exterior.
MEDIUNIDADE E INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS
As pesquisas em torno do fenômeno da inteligência têm se desenvolvido nas últimas décadas de forma acentuada. A partir do questionamento acerca das antigas mensurações em torno do quociente de inteligência (QI) das proposições do início do século 20, estudiosos como o psicólogo norte-americano, Howard Gardner, sistematicamente vêm propondo a ampliação das conceituações em torno das habilidades cognitivas do ser humano.
Conforme Gardner, a modalidade de inteligência que no imaginário popular ainda predomina, a do cientista de cabeleira desgrenhada e memória matemática prodigiosa, representa apenas uma das possibilidades da inteligência humana. Assim, o pesquisador de Harvard lança a proposição na década de 1980 das inteligências múltiplas, dividindo-as basicamente em inteligência de lógica matemática, inteligência linguística, inteligência musical, inteligência espacial, inteligência corporal-cinestésica, inteligência intrapessoal, inteligência interpessoal e inteligência naturalista. Nomes como Isaac Newton, Ferdinand de Saussure, Mozart, Oscar Niemeyer, Pelé, Sócrates, Gandhi e Darwin seriam bons exemplos de grandes gênios nas modalidades de inteligência respectivamente mencionadas.
Todavia, Howard Gardner menciona, no conjunto de seu trabalho, que poderiam haver outras modalidades de inteligência, classificáveis de acordo com pesquisas a serem amplamente desenvolvidas. A biografia de Divaldo Pereira Franco, e agora a sua cinebiografia, sugerem uma instigante possibilidade de pesquisas no campo da psicologia que estuda a inteligência humana. Conforme os postulados de Gardner, e a vida de Divaldo Franco, seria possível a inferência em torno de uma inteligência que se poderia denominar de “mediúnica”.
Alguém que a exemplo de Divaldo Pereira Franco e Francisco Cândido Xavier produz centenas de obras nos mais diversos estilos e complexidades conteudísticas, e em condições psicomotoras anômalas, o que não quer dizer patológicas, mereceria o olhar atento dos especialistas em inteligência. Enquanto esse olhar não vem, a arte – no caso, a cinematográfica – vai desempenhando o seu papel de antecipadora de realidades futuras.

